A
ABORDAGEM JUDAICO-MESSIÂNICA DAS ESCRITURAS
Por Jurandir Britto de Freitas
A
preparação deste pequeno estudo demorou aproximadamente 25 anos e começou no
dia que vim a fazer de Jesus o meu Redentor.
Para
que se entenda o porquê deste estudo, sou obrigado a fazer um retrospecto até
aquela data.
Logo
após me converter, comecei a ler a Bíblia com o intuito de me aperfeiçoar nos
ensinamentos de Jesus. Eu já estava bem familiarizado com a Bíblia, pois havia
estudado com padres beneditinos húngaros, que prezavam a boa tradição de uma
leitura regular. Assim, eu já tinha um bom conhecimento do conjunto, mas nunca
havia me detido no entendimento propriamente dito.
A
minha primeira abordagem após a minha conversão foi fazer a leitura algumas
vezes de Gênesis ao Apocalipse, sem muito refino. Eu até me aventurava a emitir
algumas opiniões, mas nada respaldado com muito entendimento.
Poucos
anos depois, eu e a Teresa ingressamos no Curso de Discipulado e uma das
matérias foi o Estudo da Palavra. Lembro-me bem que a base de estudo era um
livro do Pr. Tim LaHaye, que adotava uma metodologia dentro de parâmetros
cristãos.
Passei
anos usando essa metodologia à medida que passei a ser um discipulador. O
entendimento já era bem mais apurado, mas notava que ainda existiam lacunas que
precisavam ser resolvidas.
Anos
mais tarde, comecei a estudar teologia sistemática, baseada nos livros de Wayne
Gruden de mesmo nome. Confesso que os estudos de teologia não foram o que
esperava, mas algo muito importante aconteceu.
Quando
estudei a escatologia embutida na teologia sistemática, notei que a abordagem
da matéria era muito deficiente, parecendo mais um conjunto de teses de estatística
do que um estudo profundo sobre o assunto. Por ser engenheiro e tendo ficado em
dependência de estatística, realmente a abordagem me decepcionou. E, aí, o
Senhor agiu.
Ele
me colocou em contato com um pastor americano, o Pr. Jack Kelley, com quem
comecei a me corresponder e que começou a me ensinar a verdadeira maneira de se
estudar escatologia, mais especificamente profecias.
Foram
mais de 5 anos de muito estudo e passei a ter uma visão da Bíblia muito mais
expandida. Passei a ter uma visão de quase 360º, onde descobri a importância de
se atentar para contexto e destinatário da mensagem bíblica, além do
significado das palavras em hebraico, usando a ferramenta Strong.
Um
dia, fui visitado por um grande irmão em Cristo, um rabino messiânico chinês.
Ele se aproximou de mim para me cumprimentar, com um pacote na mão, que me
entregou dizendo: “O Senhor quer que você estude cuidadosamente este livro”. Era
um exemplar de “Os Passos Do Messias”, do Dr. Arnold Fruchtenbaum.
Não
preciso dizer que “devorei” o livro, reli-o algumas vezes e passei a me
corresponder com o Dr. Arnold também, vindo a assinar um contrato para traduzir
esse livro para o Português, que está sendo completado em breve.
Nos
anos de convivência com o Dr. Arnold, tive oportunidade de refazer meus estudos
de teologia, com um mergulho profundo em sua série de publicações teológicas,
todas baseadas em sua tese de doutorado, denominada “Israelology – The Missing
Ling In Sistematic Theology.
Para
quem não o conhece, sua tese demorou aproximadamente 13 anos para ser escrita e
recebeu a maior nota jamais concedida nos EUA. Não é por menos que o Dr. Arnold
é considerado por muitos como o Apóstolo Paulo do século XXI e seus estudos
teológicos são os mais completos que conheço.
Mas
qual foi a maior contribuição do Dr. Arnold para o meu aprendizado? Em suma,
foi me lembrar que a Bíblia é um livro de origem judaica, primariamente
destinado a judeus.
Agora
vamos usar dois exemplos, entre muitos, para entendermos o porquê deste estudo.
se
o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se
converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus
pecados e sararei a sua terra (2 Cr 7:14).
Quantos
de nós já não ouviram este versículo como um chamamento ao arrependimento para
uma determinada igreja, como que um “mantra” sendo continuamente recitado?
Acredito que a maioria.
Mas
seria este versículo endereçado à Igreja? Qual foi o contexto deste versículo?
Em
primeiro lugar, a Igreja nunca foi e nunca será um povo. A Igreja é uma
entidade espiritual que nunca teve uma composição orgânica e cujos integrantes
têm sido ajuntados de “grande multidão
que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas”
(Ap 7:9).
Em
segundo lugar, o contexto é a inauguração do Templo de Salomão, e essas
palavras foram entregues pelo Senhor Deus a Salomão, como uma mensagem ao Seu
povo, Judá.
Qual
é a aplicabilidade à Igreja? Fora a informação importante, nenhuma aplicação direta
pode ser esperada, excetuando-se, talvez, o princípio. Pode parecer espiritual
florear uma oração com essas palavras, mas o que esperar de Deus como resposta
se isso não se aplica à Igreja?
O
segundo versículo escolhido é ainda mais contundente como exemplo:
Toda
arma forjada contra ti não prosperará; toda língua que ousar contra ti em
juízo, tu a condenarás; esta é a herança dos servos do SENHOR e o seu direito
que de mim procede, diz o SENHOR (Is 54:17)
Eu
estava enfrentando um problema judicial muito sério, onde havia obtido uma
sentença de primeira instância irretocável e os meus oponentes haviam recorrido
ao Tribunal de Justiça.
Antes
da sentença, fui orar com um amigo pastor, bastante conhecido de muitos, e ele
invocou este versículo, dizendo para não me preocupar pois nós já havíamos
condenado em concordância e que estava coberto pela justiça de Deus.
Eu
fiquei sossegado momentaneamente até vir a sentença que me condenou, reformando
a decisão de primeira instância. Eu fiquei muito abalado, achando que Deus
havia me abandonado. O que tinha acontecido?
Os
meus oponentes foram, sorrateiramente, à uma determinada pessoa no tribunal e
compraram a sentença, e eu fui condenado. A minha causa era mais do que justa,
mas, mesmo assim, perdi.
Qual
foi o meu erro? Foi usar um versículo que será aplicável ao Israel redimido
durante o Reino Milenar. Em poucas palavras, tiramos, o meu amigo pastor e eu,
o texto do contexto.
Agora
vamos a mais um ensinamento que é uma unanimidade entre os rabinos, mas que
nunca havia ouvido em qualquer comentário cristão.
Quando
o Conselho da Divindade, composto do Pai, Filho e Espírito Santo, decidiu criar
a realidade do Universo, a primeira providencia de Deus foi criar o alfabeto,
composto de 22 letras e 10 números.
A
primeira criação foi, portanto, a criação do alfabeto, que veio a ser conhecido
como o alfabeto hebraico. Sim, o alfabeto hebraico é a língua da Criação e onde
encontramos o DNA de Deus.
No
início da Bíblia encontramos: E DISSE DEUS!
Ao
combinar as letras conjuntamente formando as palavras, Deus criou a realidade
de tudo o que conhecemos através de pronunciá-las.
Cada
letra possui uma energia espiritual e essa energia combinada produziu a
realidade. Assim, como sabemos o que cada letra significa?
Primeiro,
pela aparência. O formato é importante.
Segundo,
cada letra tem um valor numérico.
Terceiro,
a primeira vez que uma letra aparece na Bíblia, aquela letra se torna a raiz da
palavra e aquela palavra nos dá o significado da letra.
O
que, então, significa ser humano?
É
a combinação de três letras, começando pelo Alef, o Daled e o Mem. Alef não tem
pronúncia audível e significa algo conectado com o espiritual, diretamente com
Deus. E assim surgiu a palavra Adão e a união entre Deus e o homem.
Então,
para que se tenha consistência entre a Criação e a Palavra de Deus escrita, a
língua de comunicação tem que ser também a língua hebraica.
Mas
Deus não ficou somente nisso quando transmitiu Suas instruções para Moisés de
como registrar Sua Palavra.
Moisés
foi instruído por Deus a registrar Suas palavras num texto contínuo, sem
interrupções, escritas da direita para a esquerda, no que se chama texto
massorético. E daí surgiu a Torá, ou Pentateuco, conforme o denominamos.
Mas
Deus instruiu mais a Moisés. Instruiu que, quando fossem feitas cópias dos
escritos sagrados, o copista (escriba) deveria somar os números das letras na
horizontal e na vertical e tanto o texto copiado quanto a cópia deveriam
apresentar o mesmo resultado.
Posteriormente
o mesmo critério foi usado para o Tanakh, que é o que chamamos de Velho
Testamento.
Mas
Deus ainda não parou aí. Embutidas no Tanakh foram inseridas milhares de
profecias, tanto messiânicas como genéricas, muitas das quais já cumpridas.
Este é o método racional que Deus escolheu para Se autenticar (Is 42:9; 43:9,10;
44:6-8). O grau de acertos das profecias já cumpridas ultrapassa a casa de dez
elevado à décima milésima potência!
Agora
chegamos ao cerne do nosso estudo.
Todo
o Antigo Testamento foi escrito para os judeus e para os poucos gentios que se
agregaram a eles como prosélitos.
Os
Evangelhos destacam o ministério de Jesus, o Deus vivo, um judeu, mas só foram
registrados vários anos após Sua partida.
Os
gentios somente começaram a se juntar aos judeus na formação da Igreja,
conforme reportado no livro de Atos, após a conversão de Cornélio.
É
importantíssimo de se destacar que todos os autores bíblicos, excetuando-se
Lucas, foram judeus.
E
onde está o erro que a maioria dos cristãos está cometendo? O erro está em
tirar o texto do contexto e não saber o que se aplica a quem ou a que.
Mistura-se, erroneamente, Igreja com Israel e vice-versa.
Recapitulando,
Israel e Igreja tem propósitos diferentes. Israel tem uma constituição orgânica
terrena e para Israel estão destinadas as alianças e todas as promessas
pertinentes. Israel é o povo escolhido por Deus para, através de Seus profetas,
receber e ser o depositário da Sua Palavra, ser o lar do Seu Messias e ser a
sede de Seu Reino, ainda no futuro.
A
Igreja não é uma entidade com constituição orgânica terrena e foi instituída
por Deus para servir de testemunho às gerações futuras da grandiosidade da Sua
Graça. O Igreja foi um mistério para as gerações anteriores e só foi revelada
ao mundo após a morte de Jesus, especificamente por Paulo.
Assim,
quando nós, seguidores de Jesus, abordamos as Escrituras, nós temos que
entender que elas foram, primariamente, escritas para judeus.
Também
é muito importante lembrar que, nós, gentios, nunca fomos regulados pela Lei de
Moisés, composta de 613 mandamentos, incluindo o que chamamos de Decálogo, ou
Dez Mandamentos.
Quando
Jesus morreu, a Lei de Moisés terminou, de acordo com Romanos 10:4:
Porque
o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê.
A
palavra traduzida como fim é tellos, que significa término.
Para
os seguidores de Jesus, o novo ordenamento jurídico é a Lei de Cristo
mencionada em Gálatas 6:2, composta de aproximadamente 330 ordenanças e
princípios, contidos nas Epístolas.
Também
nas Epístolas, precisamos destacar que alguns capítulos e livros foram
escritos, primariamente, para irmãos de origem judaica, como Romanos 9-11,
Hebreus, Tiago, 1ª e 2ª Pedro e Judas.
Voltando
ao tema de contexto e destinatário, a Igreja recebeu muito poucas promessas e
profecias, comparativamente com Israel, fora as ordenanças e princípios da Lei
de Cristo.
No
entanto, nunca na história da humanidade um grupo selecionado de pessoas foi ou
será jamais abençoado e assistido como a Igreja. Uma prova disso é o selo
permanente do Espírito Santo que habita em cada participante da Igreja.
Assim,
nós já somos equipados com todos os instrumentos para vivermos uma vida como
Jesus determinou mas, realmente, precisamos colocar óculos “judeus” quando
lemos as Escrituras, sabendo, de antemão, que muitas coisas podem não se
aplicar à Igreja apesar de que toda a
Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a
correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito
e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2 Ti 3:16,17).
Como
disse Paulo, “A minha graça te basta,
porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 12:9).
Finalizando,
uma boa tradução bíblica é importantíssima. A nossa versão Almeida Revista e
Atualizada é a que mais se aproxima de outras traduções confiáveis, como a King
James, mas, mesmo assim, apresenta algumas imperfeições.
Assim,
a comparação com outras versões contribui para a melhoria de interpretação, de
preferência as melhores versões hebraicas para quem entender, e a ferramenta
Strong ajuda muito no entendimento correto das palavras.
Este
estudo foi escrito para servir de base a um outro estudo, este bastante
impactante, que virá a seguir. Até lá.
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