quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A ABORDAGEM JUDAICO-MESSIÂNICA DAS ESCRITURAS

A ABORDAGEM JUDAICO-MESSIÂNICA DAS ESCRITURAS

Por Jurandir Britto de Freitas


A preparação deste pequeno estudo demorou aproximadamente 25 anos e começou no dia que vim a fazer de Jesus o meu Redentor.

Para que se entenda o porquê deste estudo, sou obrigado a fazer um retrospecto até aquela data.

Logo após me converter, comecei a ler a Bíblia com o intuito de me aperfeiçoar nos ensinamentos de Jesus. Eu já estava bem familiarizado com a Bíblia, pois havia estudado com padres beneditinos húngaros, que prezavam a boa tradição de uma leitura regular. Assim, eu já tinha um bom conhecimento do conjunto, mas nunca havia me detido no entendimento propriamente dito.

A minha primeira abordagem após a minha conversão foi fazer a leitura algumas vezes de Gênesis ao Apocalipse, sem muito refino. Eu até me aventurava a emitir algumas opiniões, mas nada respaldado com muito entendimento.

Poucos anos depois, eu e a Teresa ingressamos no Curso de Discipulado e uma das matérias foi o Estudo da Palavra. Lembro-me bem que a base de estudo era um livro do Pr. Tim LaHaye, que adotava uma metodologia dentro de parâmetros cristãos.

Passei anos usando essa metodologia à medida que passei a ser um discipulador. O entendimento já era bem mais apurado, mas notava que ainda existiam lacunas que precisavam ser resolvidas.

Anos mais tarde, comecei a estudar teologia sistemática, baseada nos livros de Wayne Gruden de mesmo nome. Confesso que os estudos de teologia não foram o que esperava, mas algo muito importante aconteceu.

Quando estudei a escatologia embutida na teologia sistemática, notei que a abordagem da matéria era muito deficiente, parecendo mais um conjunto de teses de estatística do que um estudo profundo sobre o assunto. Por ser engenheiro e tendo ficado em dependência de estatística, realmente a abordagem me decepcionou. E, aí, o Senhor agiu.

Ele me colocou em contato com um pastor americano, o Pr. Jack Kelley, com quem comecei a me corresponder e que começou a me ensinar a verdadeira maneira de se estudar escatologia, mais especificamente profecias.

Foram mais de 5 anos de muito estudo e passei a ter uma visão da Bíblia muito mais expandida. Passei a ter uma visão de quase 360º, onde descobri a importância de se atentar para contexto e destinatário da mensagem bíblica, além do significado das palavras em hebraico, usando a ferramenta Strong.

Um dia, fui visitado por um grande irmão em Cristo, um rabino messiânico chinês. Ele se aproximou de mim para me cumprimentar, com um pacote na mão, que me entregou dizendo: “O Senhor quer que você estude cuidadosamente este livro”. Era um exemplar de “Os Passos Do Messias”, do Dr. Arnold Fruchtenbaum.

Não preciso dizer que “devorei” o livro, reli-o algumas vezes e passei a me corresponder com o Dr. Arnold também, vindo a assinar um contrato para traduzir esse livro para o Português, que está sendo completado em breve.

Nos anos de convivência com o Dr. Arnold, tive oportunidade de refazer meus estudos de teologia, com um mergulho profundo em sua série de publicações teológicas, todas baseadas em sua tese de doutorado, denominada “Israelology – The Missing Ling In Sistematic Theology.

Para quem não o conhece, sua tese demorou aproximadamente 13 anos para ser escrita e recebeu a maior nota jamais concedida nos EUA. Não é por menos que o Dr. Arnold é considerado por muitos como o Apóstolo Paulo do século XXI e seus estudos teológicos são os mais completos que conheço.

Mas qual foi a maior contribuição do Dr. Arnold para o meu aprendizado? Em suma, foi me lembrar que a Bíblia é um livro de origem judaica, primariamente destinado a judeus.

Agora vamos usar dois exemplos, entre muitos, para entendermos o porquê deste estudo.

se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra (2 Cr 7:14).
 
Quantos de nós já não ouviram este versículo como um chamamento ao arrependimento para uma determinada igreja, como que um “mantra” sendo continuamente recitado? Acredito que a maioria.

Mas seria este versículo endereçado à Igreja? Qual foi o contexto deste versículo?

Em primeiro lugar, a Igreja nunca foi e nunca será um povo. A Igreja é uma entidade espiritual que nunca teve uma composição orgânica e cujos integrantes têm sido ajuntados de “grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7:9).

Em segundo lugar, o contexto é a inauguração do Templo de Salomão, e essas palavras foram entregues pelo Senhor Deus a Salomão, como uma mensagem ao Seu povo, Judá.

Qual é a aplicabilidade à Igreja? Fora a informação importante, nenhuma aplicação direta pode ser esperada, excetuando-se, talvez, o princípio. Pode parecer espiritual florear uma oração com essas palavras, mas o que esperar de Deus como resposta se isso não se aplica à Igreja?

O segundo versículo escolhido é ainda mais contundente como exemplo:

Toda arma forjada contra ti não prosperará; toda língua que ousar contra ti em juízo, tu a condenarás; esta é a herança dos servos do SENHOR e o seu direito que de mim procede, diz o SENHOR (Is 54:17)

Eu estava enfrentando um problema judicial muito sério, onde havia obtido uma sentença de primeira instância irretocável e os meus oponentes haviam recorrido ao Tribunal de Justiça.

Antes da sentença, fui orar com um amigo pastor, bastante conhecido de muitos, e ele invocou este versículo, dizendo para não me preocupar pois nós já havíamos condenado em concordância e que estava coberto pela justiça de Deus.

Eu fiquei sossegado momentaneamente até vir a sentença que me condenou, reformando a decisão de primeira instância. Eu fiquei muito abalado, achando que Deus havia me abandonado. O que tinha acontecido?

Os meus oponentes foram, sorrateiramente, à uma determinada pessoa no tribunal e compraram a sentença, e eu fui condenado. A minha causa era mais do que justa, mas, mesmo assim, perdi.

Qual foi o meu erro? Foi usar um versículo que será aplicável ao Israel redimido durante o Reino Milenar. Em poucas palavras, tiramos, o meu amigo pastor e eu, o texto do contexto.

Agora vamos a mais um ensinamento que é uma unanimidade entre os rabinos, mas que nunca havia ouvido em qualquer comentário cristão.

Quando o Conselho da Divindade, composto do Pai, Filho e Espírito Santo, decidiu criar a realidade do Universo, a primeira providencia de Deus foi criar o alfabeto, composto de 22 letras e 10 números.

A primeira criação foi, portanto, a criação do alfabeto, que veio a ser conhecido como o alfabeto hebraico. Sim, o alfabeto hebraico é a língua da Criação e onde encontramos o DNA de Deus.

No início da Bíblia encontramos: E DISSE DEUS!

Ao combinar as letras conjuntamente formando as palavras, Deus criou a realidade de tudo o que conhecemos através de pronunciá-las.

Cada letra possui uma energia espiritual e essa energia combinada produziu a realidade. Assim, como sabemos o que cada letra significa?

Primeiro, pela aparência. O formato é importante.

Segundo, cada letra tem um valor numérico.

Terceiro, a primeira vez que uma letra aparece na Bíblia, aquela letra se torna a raiz da palavra e aquela palavra nos dá o significado da letra.

O que, então, significa ser humano?

É a combinação de três letras, começando pelo Alef, o Daled e o Mem. Alef não tem pronúncia audível e significa algo conectado com o espiritual, diretamente com Deus. E assim surgiu a palavra Adão e a união entre Deus e o homem.

Então, para que se tenha consistência entre a Criação e a Palavra de Deus escrita, a língua de comunicação tem que ser também a língua hebraica.

Mas Deus não ficou somente nisso quando transmitiu Suas instruções para Moisés de como registrar Sua Palavra.

Moisés foi instruído por Deus a registrar Suas palavras num texto contínuo, sem interrupções, escritas da direita para a esquerda, no que se chama texto massorético. E daí surgiu a Torá, ou Pentateuco, conforme o denominamos.

Mas Deus instruiu mais a Moisés. Instruiu que, quando fossem feitas cópias dos escritos sagrados, o copista (escriba) deveria somar os números das letras na horizontal e na vertical e tanto o texto copiado quanto a cópia deveriam apresentar o mesmo resultado.

Posteriormente o mesmo critério foi usado para o Tanakh, que é o que chamamos de Velho Testamento.

Mas Deus ainda não parou aí. Embutidas no Tanakh foram inseridas milhares de profecias, tanto messiânicas como genéricas, muitas das quais já cumpridas. Este é o método racional que Deus escolheu para Se autenticar (Is 42:9; 43:9,10; 44:6-8). O grau de acertos das profecias já cumpridas ultrapassa a casa de dez elevado à décima milésima potência!

Agora chegamos ao cerne do nosso estudo.

Todo o Antigo Testamento foi escrito para os judeus e para os poucos gentios que se agregaram a eles como prosélitos.

Os Evangelhos destacam o ministério de Jesus, o Deus vivo, um judeu, mas só foram registrados vários anos após Sua partida.

Os gentios somente começaram a se juntar aos judeus na formação da Igreja, conforme reportado no livro de Atos, após a conversão de Cornélio.

É importantíssimo de se destacar que todos os autores bíblicos, excetuando-se Lucas, foram judeus.

E onde está o erro que a maioria dos cristãos está cometendo? O erro está em tirar o texto do contexto e não saber o que se aplica a quem ou a que. Mistura-se, erroneamente, Igreja com Israel e vice-versa.

Recapitulando, Israel e Igreja tem propósitos diferentes. Israel tem uma constituição orgânica terrena e para Israel estão destinadas as alianças e todas as promessas pertinentes. Israel é o povo escolhido por Deus para, através de Seus profetas, receber e ser o depositário da Sua Palavra, ser o lar do Seu Messias e ser a sede de Seu Reino, ainda no futuro.

A Igreja não é uma entidade com constituição orgânica terrena e foi instituída por Deus para servir de testemunho às gerações futuras da grandiosidade da Sua Graça. O Igreja foi um mistério para as gerações anteriores e só foi revelada ao mundo após a morte de Jesus, especificamente por Paulo.

Assim, quando nós, seguidores de Jesus, abordamos as Escrituras, nós temos que entender que elas foram, primariamente, escritas para judeus.

Também é muito importante lembrar que, nós, gentios, nunca fomos regulados pela Lei de Moisés, composta de 613 mandamentos, incluindo o que chamamos de Decálogo, ou Dez Mandamentos.

Quando Jesus morreu, a Lei de Moisés terminou, de acordo com Romanos 10:4:

Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê.

A palavra traduzida como fim é tellos, que significa término.

Para os seguidores de Jesus, o novo ordenamento jurídico é a Lei de Cristo mencionada em Gálatas 6:2, composta de aproximadamente 330 ordenanças e princípios, contidos nas Epístolas.

Também nas Epístolas, precisamos destacar que alguns capítulos e livros foram escritos, primariamente, para irmãos de origem judaica, como Romanos 9-11, Hebreus, Tiago, 1ª e 2ª Pedro e Judas.

Voltando ao tema de contexto e destinatário, a Igreja recebeu muito poucas promessas e profecias, comparativamente com Israel, fora as ordenanças e princípios da Lei de Cristo.

No entanto, nunca na história da humanidade um grupo selecionado de pessoas foi ou será jamais abençoado e assistido como a Igreja. Uma prova disso é o selo permanente do Espírito Santo que habita em cada participante da Igreja.

Assim, nós já somos equipados com todos os instrumentos para vivermos uma vida como Jesus determinou mas, realmente, precisamos colocar óculos “judeus” quando lemos as Escrituras, sabendo, de antemão, que muitas coisas podem não se aplicar à Igreja apesar de que toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2 Ti 3:16,17).

Como disse Paulo, “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 12:9).

Finalizando, uma boa tradução bíblica é importantíssima. A nossa versão Almeida Revista e Atualizada é a que mais se aproxima de outras traduções confiáveis, como a King James, mas, mesmo assim, apresenta algumas imperfeições.

Assim, a comparação com outras versões contribui para a melhoria de interpretação, de preferência as melhores versões hebraicas para quem entender, e a ferramenta Strong ajuda muito no entendimento correto das palavras.


Este estudo foi escrito para servir de base a um outro estudo, este bastante impactante, que virá a seguir. Até lá.

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